DÓLAR HOJE:
Euro Hoje
6 de junho de 2026

Depois da Braskem, Alagoas vai ignorar os sinais de alerta no Agreste?

Ouça este artigo

Compartilhe este artigo


Estado registra 185 tremores de terra em seis anos, enquanto moradores de Craíbas e Arapiraca relatam rachaduras, vibrações e medo dos efeitos da mineração

Alagoas conhece, talvez melhor do que qualquer outro estado brasileiro, o preço de ignorar sinais que vêm do solo. Depois da tragédia provocada pela mineração de sal gema em Maceió, qualquer registro de tremor, rachadura em casa ou denúncia de moradores próximos a áreas de exploração mineral precisa ser tratado com seriedade máxima.

Agora, o alerta vem do Agreste.

Entre maio de 2020 e maio de 2026, Alagoas registrou 185 eventos sísmicos detectados pelo Laboratório Sismológico da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Craíbas e Arapiraca aparecem no centro da preocupação, com 31 e 30 registros, respectivamente, segundo os dados divulgados.

Os tremores são considerados de baixa magnitude, mas isso não significa que possam ser ignorados. Para quem mora perto das áreas afetadas, o problema não está apenas nos números frios dos equipamentos. Está nas paredes rachadas, nas vibrações sentidas dentro de casa, nos relatos de explosões, na poeira constante e na insegurança de famílias que não sabem se estão vivendo sobre um risco silencioso.

Especialistas apontam duas hipóteses principais para os abalos no Agreste: a existência de falhas geológicas naturais na região e a possível influência de atividades mineradoras. As duas possibilidades não se anulam. Pelo contrário, reforçam a necessidade de investigação técnica séria, contínua e independente.

Esse é o ponto mais delicado da história. Quando há moradores relatando danos, quando há tremores recorrentes e quando existe atividade de mineração próxima a comunidades, o poder público não pode se esconder atrás da burocracia. É preciso investigar antes que o problema cresça. É preciso fiscalizar antes que a conta chegue. É preciso ouvir as famílias antes que elas sejam obrigadas a abandonar suas casas.

Em Craíbas, moradores de comunidades próximas à Mina Serrote relatam impactos que, segundo eles, fazem parte da rotina. São queixas sobre explosões, vibrações, rachaduras em imóveis e sensação permanente de insegurança. Ainda que essas denúncias precisem ser confirmadas por laudos técnicos independentes, elas já são graves o bastante para exigir resposta imediata das autoridades.

A memória de Maceió não permite negligência. No caso da Braskem, os primeiros sinais também vieram acompanhados de dúvidas, explicações desencontradas e demora na resposta institucional. Depois, estudos oficiais comprovaram a relação entre a atividade mineradora e o afundamento do solo em bairros inteiros da capital. O resultado foi uma das maiores tragédias urbanas e ambientais do país, com famílias removidas, imóveis perdidos, comunidades desfeitas e uma ferida que Alagoas ainda não conseguiu fechar.

Comparar os casos não significa dizer que são iguais. O Agreste tem outra realidade geológica, outro tipo de mineração e outro contexto operacional. Mas a lição é a mesma: quando o solo fala, o Estado precisa escutar.

A Justiça já determinou medidas de controle sobre a atividade mineradora em Craíbas, incluindo monitoramento sísmico independente, apresentação de dados sobre detonações, criação de canais de denúncia e maior fiscalização ambiental. Essas medidas são importantes, mas precisam sair do papel com transparência e acompanhamento público.

A população tem direito de saber quantos tremores ocorreram, em quais horários, com qual magnitude, em quais profundidades e se há coincidência com detonações ou outras operações da mineração. Também tem direito de saber se as casas estão seguras, se as rachaduras têm relação com vibrações repetidas e se há plano de emergência para as comunidades próximas.

Não se trata de ser contra o desenvolvimento econômico. Mineração gera emprego, arrecadação e atividade produtiva. Mas nenhum projeto econômico pode estar acima da segurança das pessoas, da integridade das casas, da saúde das comunidades e da proteção ambiental.

Alagoas já pagou caro demais por uma tragédia anunciada. Por isso, os tremores no Agreste não podem ser tratados como problema pequeno, exagero de moradores ou assunto técnico distante da vida real.

A pergunta que precisa ser feita agora é simples e incômoda: o Estado vai agir de forma preventiva ou vai esperar que a história cobre novamente?

Redação IO
Imagem Ilustrativa

Compartilhe este artigo

Deixe seu comentário

Para comentar na página você deve estar logado em seu perfil do Facebook. Este espaço visa promover um debate sobre o assunto tratado na matéria. Comentários com tons ofensivos, preconceituosos e que firam a ética e a moral poderão ser denunciados, acarretando até mesmo na perda da conta. Leia os termos de uso e participe com responsabilidade.

Erro, não existe o grupo! Verifique sua sintaxe! (ID: 5)

Comercial

Redação

© COPYRIGHT 2023 – GOCOM GRUPO ONLINE DE COMUNICAÇÃO. TODOS OS DIREITOS RESERVADOS.