
Discussão na Comissão de Assuntos Econômicos reacende cobrança sobre aplicações do Iprev Maceió no Banco Master e coloca JHC no centro do embate político em Alagoas
O clima político entre Renan Calheiros e o grupo do antigo prefeito de Maceió, JHC, voltou a esquentar nesta terça-feira, durante audiência da Comissão de Assuntos Econômicos do Senado com o presidente do Banco de Brasília, Nelson Antônio de Souza. O que deveria ser uma discussão técnica sobre operações envolvendo BRB e Banco Master acabou se transformando em um duro embate político com reflexos diretos em Alagoas.
No centro da discussão está o Iprev Maceió, instituto responsável pela previdência dos servidores municipais. Renan voltou a cobrar explicações sobre aplicações realizadas em títulos do Banco Master e levantou a pergunta que pesa sobre o caso: quem autorizou, quem recomendou e quem responderá caso haja prejuízo ao dinheiro de aposentados e pensionistas?
A fala provocou reação imediata da senadora Eudócia Caldas, mãe de JHC. Ela rebateu as acusações, defendeu o filho e afirmou que o antigo prefeito teria dado autonomia ao presidente do Iprev e ao conselho do instituto. Segundo a senadora, as decisões adotadas à época seguiam práticas consideradas regulares e não teriam passado por interferência direta de JHC.
O episódio colocou frente a frente duas narrativas.
De um lado, Renan sustenta que as aplicações precisam ser investigadas com profundidade e afirma ter acionado a Justiça para tentar anular operações feitas pela previdência municipal em Letras Financeiras do Banco Master, além de buscar eventual ressarcimento de valores. O prejuízo estimado apontado na ação chega a R$ 117 milhões.
De outro lado, Eudócia afirma que o caso está sendo usado politicamente para atingir JHC e nega qualquer relação do filho com Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. A senadora também cobrou que Renan apoie a criação de uma CPI para investigar o Banco Master e o BMG, ampliando o alcance das apurações.
A tensão aumentou quando Renan usou tom duro ao falar sobre o dinheiro dos aposentados. O senador disse que não pretende antecipar julgamento sobre responsáveis, mas afirmou que, se houve desvio ou irregularidade, quem tiver causado prejuízo deverá devolver os valores. Eudócia respondeu em tom igualmente forte, dizendo que nunca ensinou o filho a roubar.
A frase elevou o confronto político e mostrou que o caso deixou de ser apenas uma discussão financeira. O Iprev entrou definitivamente no tabuleiro da disputa entre os dois principais grupos políticos de Alagoas.
Apesar da troca de acusações, o ponto central continua sendo outro: o dinheiro dos aposentados e pensionistas de Maceió. Independentemente de lado político, a pergunta que precisa ser respondida é se houve análise adequada de risco, quem participou das decisões, quais pareceres embasaram as aplicações e quais medidas foram tomadas para proteger o patrimônio previdenciário.
A Previdência de Maceió nega irregularidades. O órgão sustenta que as aplicações ocorreram conforme a regulação vigente e a política de investimentos da época. Também afirma que o Banco Master operava regularmente, com autorização do Banco Central e credenciamento no Ministério da Previdência Social no momento das decisões.
Mesmo assim, o caso exige transparência. Quando recursos previdenciários entram em operações questionadas, não basta afirmar que tudo estava formalmente correto. É preciso demonstrar, com documentos, atas, pareceres, avaliações de risco e responsabilidades definidas, que o dinheiro dos servidores foi tratado com o nível de cautela que a situação exigia.
A orientação nacional de órgãos de controle vai nessa direção. Tribunais de Contas foram orientados a intensificar a análise sobre investimentos de regimes próprios de previdência no Banco Master, incluindo consultorias, agentes públicos, pareceres técnicos e toda a cadeia decisória que levou às aplicações.
É exatamente esse ponto que torna o caso tão sensível. Não se trata apenas de saber se havia autorização formal para investir. A questão é saber se houve prudência, governança, avaliação de risco e proteção efetiva aos aposentados.
A audiência no Senado expôs mais do que um bate-boca entre Renan e Eudócia. Expôs uma disputa política pesada, com cheiro de 2026, em cima de uma pauta que interessa diretamente aos servidores públicos de Maceió.
O caso agora exige menos grito e mais documento. Menos ataque pessoal e mais resposta objetiva. Menos uso eleitoral e mais prestação de contas.
Porque, no fim, a pergunta que fica para Maceió é simples e incômoda: quem vai garantir que o dinheiro dos aposentados não vire apenas arma na guerra política de Alagoas?
Redação IO
Imagem: Reprodução







