
Enquanto a capital investe em luzes, turismo e grandes eventos, moradores cobram respostas sobre um serviço básico que voltou ao centro da indignação pública
Maceió vive o clima do São João, com ruas iluminadas, programação cultural e forte divulgação turística. Mas, longe do brilho da festa, um problema básico voltou a provocar revolta, cobrança pública e desgaste para a gestão municipal: a coleta de lixo.
O contraste é evidente. De um lado, a cidade se apresenta como vitrine de eventos, decoração e turismo. Do outro, moradores relatam transtornos causados por lixo acumulado, mau cheiro e sensação de descaso em diferentes pontos da capital. O tema ganhou ainda mais peso após a Defensoria Pública de Alagoas convocar uma reunião para discutir os serviços de coleta de lixo em Maceió e a fiscalização das obrigações das empresas responsáveis.
A discussão deixou claro que a crise não se resume apenas à reclamação de moradores. A própria Defensoria chamou para o debate representantes da ARSER, da Alurb e das empresas Naturalle e Viambiental, responsáveis pela coleta de resíduos sólidos na capital. Entre os pontos colocados em pauta estão contratos, fiscalização, metas de desempenho, medições dos serviços prestados e relatórios de execução.
E é justamente nesse ponto que cresce a cobrança. Segundo a Defensoria, informações sobre fiscalização, metas e execução dos contratos não estariam sendo divulgadas de forma adequada à população. Na prática, isso compromete a transparência, dificulta o acompanhamento pelos órgãos de controle e amplia a desconfiança sobre a regularidade de um serviço essencial.
Enquanto isso, a Prefeitura de Maceió sustenta, em divulgações oficiais, que a capital possui cobertura de coleta acima da média nacional. A gestão informa que 97,7% dos domicílios ocupados têm acesso à coleta regular, o que representa aproximadamente 335 mil lares atendidos. Também aponta média de 31 mil toneladas recolhidas por mês e 229 mil toneladas recolhidas ao longo de 2025.
Mas é exatamente aí que nasce a pergunta que ecoa entre a população: se os números oficiais são tão positivos, por que a coleta de lixo voltou a se transformar em motivo de cobrança pública, desgaste político e intervenção institucional?
A Prefeitura também argumenta que o descarte irregular feito por parte da população continua sendo um desafio e destaca ações como coleta seletiva, ecopontos, ecobarreiras e recolhimento de volumosos. O problema é que esse discurso, por si só, não encerra a crise. Descarte irregular precisa, sim, ser combatido, mas falhas na coleta, falta de transparência e ausência de respostas claras também precisam ser enfrentadas com seriedade.
Limpeza urbana não é favor. É obrigação. E, em uma cidade que investe pesado na própria imagem, o cuidado com os bairros, ruas e comunidades precisa ter o mesmo peso da decoração montada para encantar visitantes.
O lixo acumulado não compromete apenas a paisagem urbana. Ele atinge diretamente a saúde pública, favorece a proliferação de insetos e animais, piora a qualidade de vida e amplia a sensação de abandono. Quando o cidadão precisa cobrar o básico, é sinal de que o problema deixou de ser operacional e passou a ser também político e administrativo.
Maceió pode, e deve, celebrar o São João, valorizar a cultura popular e fortalecer o turismo. Mas nenhuma festa pode servir para encobrir problemas urbanos que afetam diretamente quem mora na cidade. A Maceió que brilha para o turista precisa ser a mesma Maceió que respeita o morador.
No fim das contas, a população não cobra luxo. Cobra dignidade. Cobra transparência. Cobra um serviço público funcionando como deve funcionar. Porque cidade bonita para foto não basta. Cidade de verdade precisa ser limpa, fiscalizada e cuidada todos os dias.
A Maceió da festa não pode esconder a Maceió do lixo nas ruas. E, enquanto as luzes se acendem para o São João, cresce também a cobrança para que a Prefeitura ilumine aquilo que ainda está nebuloso: a fiscalização dos contratos, a regularidade da coleta e a resposta concreta para quem convive com o problema no dia a dia.
Redação IO
Imagem Ilustrativa







