
Rodrigo Cunha evita confronto público com o antecessor, mas cenário administrativo levanta dúvidas sobre o uso de recursos e a herança deixada à atual gestão
A Prefeitura de Maceió entrou no centro de uma discussão política e administrativa que tende a ganhar força nos próximos dias: afinal, falta dinheiro no caixa do município?
A pergunta passou a circular com mais intensidade nos bastidores diante de sinais de pressão financeira na atual gestão. A avaliação que ganha corpo entre interlocutores da administração é de que o município enfrenta um momento de aperto, com necessidade de reorganizar compromissos, rever prioridades e administrar cobranças de fornecedores e serviços essenciais.
O debate também leva inevitavelmente ao fim da gestão anterior. Nos bastidores, cresce a percepção de que os últimos meses do governo passado foram marcados por um ritmo acelerado de eventos, inaugurações e compromissos públicos, o que hoje alimenta questionamentos sobre o equilíbrio entre visibilidade política, planejamento financeiro e responsabilidade administrativa.
Rodrigo Cunha assumiu a Prefeitura de Maceió em abril, após a saída de JHC para disputar as eleições de 2026. Ao tomar posse, sinalizou continuidade, prometeu manter obras, programas e investimentos e buscou transmitir estabilidade administrativa. O discurso foi de preservação do legado e manutenção do ritmo da máquina pública. Mas o cenário que se desenha agora sugere uma prefeitura pressionada pela necessidade de reorganizar o caixa.
O ponto mais sensível dessa discussão envolve recursos extraordinários que passaram pelo caixa público nos últimos anos. Em 2023, a Prefeitura de Maceió fechou acordo com a Braskem que assegurou indenização de R$ 1,7 bilhão em razão do afundamento do solo nos bairros atingidos.
Já em 2024, o município recebeu mais de R$ 286 milhões repassados pelo Governo de Alagoas, referentes a valores da concessão dos serviços de água e saneamento à BRK Ambiental, com destinação vinculada a investimentos em água e saneamento.
São valores expressivos, que extrapolam a arrecadação ordinária do município e naturalmente aumentam a cobrança pública por transparência, planejamento e explicações objetivas sobre a destinação do dinheiro.
A discussão, é claro, não significa automaticamente que tenha havido irregularidade. Mas impõe uma pergunta legítima: se a cidade contou com recursos bilionários e ainda assim enfrenta sinais de aperto financeiro, a população tem o direito de saber onde esses valores foram aplicados, quais áreas receberam prioridade e quais obrigações foram deixadas para a atual administração.
O contraste político ajuda a ampliar esse debate. Nos últimos anos, Maceió consolidou uma imagem de cidade voltada para grandes eventos, com festas de forte apelo turístico e popular, como Verão Massayó, São João Massayó e outras programações de grande porte. A defesa oficial sempre foi a de que essas ações movimentam a economia, fortalecem o turismo e geram renda para diversos setores.
Esse argumento não pode ser ignorado. Eventos públicos realmente podem produzir impacto econômico e aquecer a cidade. O problema surge quando, paralelamente a isso, aparecem sinais de dificuldade para manter o equilíbrio financeiro da estrutura pública, honrar compromissos e assegurar o funcionamento regular de serviços básicos.
É justamente aí que a discussão muda de patamar. A pergunta deixa de ser apenas se a gestão deveria ou não investir em festas e eventos, e passa a ser se havia condições reais de sustentar esse padrão de gastos sem comprometer a saúde financeira do município.
A situação da coleta de lixo reforça esse alerta. O tema já provocou cobranças e pedidos de esclarecimento sobre contratos e pagamentos, em meio a questionamentos sobre o funcionamento do serviço. Quando áreas essenciais entram na roda, o debate deixa de ser apenas político e passa a atingir diretamente o cotidiano da população.
Até aqui, Rodrigo Cunha evita responsabilizar publicamente o antecessor. A postura preserva a aliança política e impede uma ruptura aberta. Mas o silêncio também gera incerteza. Se a atual administração herdou um cenário financeiro delicado, a população precisa saber com clareza o tamanho do problema, o que existe em caixa, quais compromissos foram assumidos e que impacto isso pode ter sobre a gestão.
A questão central não está em negar a importância de obras, investimentos ou ações de promoção da cidade. O ponto é outro: dinheiro público exige critério, planejamento e responsabilidade. Grandes inaugurações podem gerar dividendos políticos. Grandes festas podem atrair público. Mas a conta, cedo ou tarde, precisa aparecer e quando aparece, precisa ser explicada.
Em Maceió, esse debate está só começando. O aperto financeiro apontado nos bastidores pode se transformar em um divisor de águas na relação entre a atual gestão e o grupo político que comandou a prefeitura até pouco tempo atrás.
Também pode forçar a abertura de números, contratos e prioridades para que a população compreenda se o município vive apenas um ajuste momentâneo ou se enfrenta uma herança mais pesada do que se imaginava.
Por enquanto, a pergunta segue no ar: faltou dinheiro ou faltou prioridade?
Redação IO
Imagem Ilustrativa







