
Renan Calheiros e Gabriel Galípolo durante audiência da Comissão de Assuntos Econômicos do Senado sobre política monetária e caso Banco Master.
O caso Banco Master voltou ao centro do debate político em Brasília após a audiência da Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, realizada ontem, terça-feira (19), com a presença do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo.
À frente da CAE, o senador Renan Calheiros (MDB-AL) elevou o tom das cobranças e defendeu maior transparência sobre as investigações que envolvem a instituição financeira, seus ex-controladores e possíveis falhas de fiscalização no sistema bancário nacional.
A reunião, inicialmente voltada à prestação de contas sobre política monetária, acabou dominada pelo escândalo do Banco Master. Renan afirmou que o episódio expôs “brechas legais”, “cegueira fiscalizatória deliberada” e “apadrinhamentos políticos e institucionais”, defendendo revisão das regras sobre crimes financeiros e maior controle sobre a relação entre autoridades públicas e agentes do mercado.
Um dos pontos mais sensíveis levantados pelo senador foi a relação de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, com integrantes do Banco Central. Segundo Renan, informações obtidas por meio da Lei de Acesso à Informação indicam que Vorcaro realizou 24 visitas à autoridade monetária. O parlamentar também questionou a atuação de dois ex-integrantes do BC que, conforme apurações mencionadas na audiência, teriam prestado consultoria informal ao banqueiro.
Galípolo respondeu que não participou da maioria dessas reuniões e afirmou que encontros entre o Banco Central e instituições financeiras em situação delicada fazem parte da rotina regulatória.
O presidente do BC também disse que a autoridade monetária identificou sinais de potencial fraude em três meses e encaminhou informações ao Ministério Público em seis meses, defendendo que a instituição agiu de forma técnica e tempestiva.
O caso ganhou dimensão nacional porque o Banco Master foi liquidado após uma crise de liquidez, deterioração financeira e suspeitas de irregularidades graves. Embora a instituição representasse menos de 1% dos ativos bancários do país, sua queda provocou forte repercussão por envolver produtos de alto rendimento, investidores, fundos, operações suspeitas e possíveis impactos sobre o Fundo Garantidor de Créditos.
Investigações conduzidas por autoridades federais ainda analisam documentos, quebras de sigilo e responsabilidades individuais. A defesa de Vorcaro nega a existência de fraude atribuída ao controlador do banco.
Durante a audiência de ontem, senadores também questionaram mudanças de postura do Banco Central em diferentes gestões. A aquisição do antigo Banco Máxima, depois rebatizado como Banco Master, chegou a ser barrada durante a gestão de Ilan Goldfajn, mas acabou aprovada posteriormente, no período de Roberto Campos Neto. Para parlamentares da CAE, essa sequência exige explicações sobre critérios técnicos, governança interna e capacidade de supervisão da autoridade monetária.
Outro ponto de tensão envolveu a tentativa de venda de parte do Banco Master ao Banco de Brasília, o BRB. De acordo com relatos apresentados na audiência, mesmo sem a efetivação da compra planejada, o BRB teria adquirido carteiras de crédito consideradas problemáticas do banco ligado a Vorcaro. O tema ampliou a preocupação dos senadores sobre possíveis riscos para instituições públicas, fundos e investidores.
Renan também citou mensagens interceptadas nas investigações que, segundo ele, apontariam a concessão de um empréstimo de R$ 140 milhões à cunhada do presidente da Câmara, Hugo Motta.
O senador relacionou o episódio a uma emenda no projeto do mercado de carbono, que teria beneficiado interesses ligados ao grupo controlador do Banco Master. As declarações foram feitas no contexto de investigações ainda em andamento, sem definição judicial sobre eventuais responsabilidades.
Na defesa institucional do Banco Central, Galípolo reconheceu limitações estruturais, tecnológicas e de pessoal para fiscalizar o sistema financeiro. Segundo ele, a autarquia perdeu cerca de 1,2 mil servidores nos últimos dez anos e precisará ampliar investimentos em tecnologia, inteligência artificial e capacidade de supervisão para evitar novos episódios de risco. Durante a audiência, o presidente do BC afirmou que “não há cobertor para cobrir tudo”.
A pressão política sobre o caso Master, portanto, já ultrapassa o campo estritamente financeiro. O episódio passou a funcionar como teste de resistência para o Banco Central, para o Congresso Nacional e para os órgãos de controle.
Ao cobrar acesso a documentos, explicações públicas e compartilhamento de informações com a CAE, Renan tenta posicionar o Senado como uma das principais frentes institucionais de acompanhamento do escândalo.
Para Alagoas, a atuação do senador também reforça sua presença no debate nacional em um tema de alto impacto político, econômico e institucional. O desfecho das apurações poderá influenciar não apenas a regulação do sistema financeiro, mas também a forma como o país fiscaliza bancos, fundos, agentes públicos e operações que envolvem bilhões de reais.
Redação IO
Agência Senado
Imagem: Edilson Rodrigues







