
Nem Catenga e PTK são citados pela Polícia Civil em apuração sobre suposta articulação política ligada ao Comando Vermelho em Alagoas.
A Operação Morro do Alemão, deflagrada nesta quarta-feira (3), abriu uma frente delicada e preocupante nas investigações sobre o avanço do crime organizado em Alagoas: a possível tentativa de usar o processo eleitoral como caminho para ampliar influência, proteger interesses e ganhar voz dentro da política.
Entre os alvos da ação está o influenciador digital Patrick Almeida, conhecido como PTK, preso durante a operação. Segundo a investigação da Polícia Civil, ele seria suspeito de integrar a estrutura de apoio da facção Comando Vermelho no estado e teria sido escolhido por Nem Catenga, apontado como líder do grupo em Alagoas, para ocupar espaço político.
A operação cumpriu mandados em Maceió, Marechal Deodoro e no Rio de Janeiro, com foco em investigados que, de acordo com a polícia, fariam parte de uma estratégia de expansão territorial da facção. Ao todo, foram expedidos 51 mandados judiciais, incluindo prisões, buscas, apreensões e medidas cautelares.
O ponto que mais chama atenção é o conteúdo de uma conversa atribuída a Nem Catenga e PTK, divulgada pelas autoridades. No diálogo, segundo a investigação, há referências a eleições, apoio político e à necessidade de ter uma “voz ativa” para representar interesses da comunidade, termo que, para a polícia, estaria ligado à tentativa de dar aparência política a uma estrutura criminosa.
A apuração aponta ainda que PTK já teria sido cogitado para disputar uma vaga na Câmara Municipal de Maceió em 2024. A candidatura, no entanto, não avançou. Atualmente, o influenciador se apresentava nas redes sociais como pré-candidato a deputado federal.
Durante o cumprimento dos mandados, a polícia informou ter apreendido com PTK R$ 20 mil em espécie, dois celulares, dois anéis de ouro e um pen drive. A investigação também apura uma suposta viagem ao Rio de Janeiro, onde ele teria se encontrado com Nem Catenga.
O caso acende um alerta que vai além da segurança pública. Quando uma facção criminosa tenta se aproximar da política, o risco não se limita ao tráfico ou à violência nas ruas. A ameaça passa a atingir também a representação democrática, a escolha do eleitor e a independência das instituições.
A Polícia Civil afirma que os mandados foram autorizados pela 17ª Vara Criminal da Capital, com base em provas técnicas reunidas durante a investigação. A operação contou com participação da DRACCO, da Polícia Militar, de unidades especializadas e apoio da Polícia Civil do Rio de Janeiro.
As investigações continuam. Até a conclusão do processo, os citados devem ser tratados como investigados, com direito à defesa e ao contraditório.
Conforme material divulgado pela Segurança Pública, a Polícia Civil teve acesso a uma conversa atribuída a Nem Catenga e PTK durante a investigação. Confira abaixo a transcrição:
Nem Catenga:
“É o seguinte, mano! Eu vou precisar falar com você pessoalmente, entendeu? Eu não sei o dia que você pode tá disponível para conversar comigo pessoalmente. Aí, qualquer dia, tu vê aí que eu peço pra comprar a passagem, viu? É referente à eleição, entendeu? Eu vou precisar […] Vamos precisar do seu apoio mais uma vez. Contamos com você, entendeu?”
Nem Catenga:
“Já para adiantar para você o que é, o que se trata, para você não ficar com interrogações, entendeu? E outras coisas, alguns detalhes, eu vou conversar com você pessoalmente. Eu queria ver com vocês se nós pode estar contando com vocês 100%, irmão. Para nós ter uma voz ativa maior e trazer os benefícios que a comunidade almeja, entendeu? Com pessoas nossas que vai nos representar verdadeiramente, como você sabe.
Outra visão eu passo pessoalmente para você entender após essa eleição e as próximas. O missionário não quer mais saber de político, entendeu? Então, assim, nós vai ter que ter um representante nosso aí, para dar continuidade e continuar sendo nossa voz ativa, independentemente de A e de B. Eu já estou conversando com todos na comunidade. Pessoalmente, você vai pegar a visão melhor, valeu?”
PTK:
“Beleza, pô. Deixa eu passar por esse bloco, tá ligado, mano? Tô com a cabeça muito perturbada. O bloco já é agora esse domingo, no outro, e a eleição ainda tá longe. Passar um pouco dessas coisas e eu melhorar um pouco, e a gente senta e conversa. Mas, independente, eu vou tá aberto, porque não tenho outro político pra apoiar, tá ligado? Pode ficar tranquilo, pô. Se eu tiver que apoiar, se eu tiver melhor, é vocês, pô.”
PTK:
“Político nenhum nunca me ajudou. Agora que eu tô na mídia, todo mundo quer. Então, eu vou tá pela favela, pô. Minha intenção é essa.”
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Redação IO
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