
Comerciante afirma que mulher seria apresentada como falsa vítima; deputado petista nega participação, chama relato de “fake news” e pede ao STF a anulação da apuração conduzida pela Polícia Legislativa
Um depoimento de quase 38 minutos, três transferências que somariam R$ 16,5 mil, uma identidade supostamente falsa e uma reunião virtual com a alegada participação de integrantes do meio político abriram um novo e grave capítulo no caso envolvendo os deputados federais Lindbergh Farias (PT-RJ) e Alfredo Gaspar (PL-AL).
No vídeo que acompanha esta reportagem, o comerciante Luiz Antônio Lopes afirma ter participado indiretamente de uma articulação destinada a apresentar uma mulher como vítima de estupro de vulnerável atribuído a Alfredo Gaspar.
O relato é grave, mas ainda precisa ser confrontado com extratos bancários, registros telefônicos, informações de plataformas digitais, mensagens, perícias e depoimentos das pessoas mencionadas. Até o momento, não existe decisão judicial reconhecendo a participação de Lindbergh em qualquer armação.
O deputado petista nega categoricamente as acusações, afirma não conhecer os envolvidos e acionou o Supremo Tribunal Federal para pedir a suspensão e a anulação do procedimento conduzido pela Polícia Legislativa da Câmara.
O que diz o depoimento
A oitiva de Luiz Antônio Lopes foi realizada por videoconferência em 23 de abril de 2026, depois de Alfredo Gaspar registrar uma ocorrência na Polícia Legislativa da Câmara dos Deputados.
Segundo o comerciante, uma mulher identificada como Marcela Maria Mendes teria sido orientada a utilizar o nome “Jailma”, apresentar-se como moradora de Maceió e acusar Gaspar de um crime sexual.
O plano envolveria ainda a criação de uma história sobre uma filha e o posterior desaparecimento da suposta vítima, o que aumentaria a repercussão política e eleitoral da denúncia.
Luiz Antônio também citou um homem chamado “Lucas”, conhecido como “Doidinho”. Ele teria feito a aproximação com a mulher e se apresentado como alguém ligado politicamente a Lindbergh.
O depoente afirmou ter participado de uma reunião virtual na qual Lindbergh teria aparecido. Pela percepção relatada por Luiz Antônio, o deputado demonstraria conhecer o contexto da articulação.
Essa afirmação, entretanto, ainda depende de comprovação técnica. Será necessário verificar se a reunião realmente aconteceu, identificar os participantes, obter os registros da plataforma utilizada e esclarecer o conteúdo completo da conversa.
Transferências somariam R$ 16,5 mil
Luiz Antônio declarou que sua conta na Caixa Econômica Federal recebeu três transferências: R$ 2,5 mil, R$ 4 mil e R$ 10 mil. O dinheiro teria sido sacado e entregue à mulher mencionada no depoimento.
À Polícia Legislativa, o comerciante teria apresentado comprovantes relativos a pelo menos duas dessas movimentações. Os registros bancários podem confirmar que o dinheiro foi transferido, mas, isoladamente, não demonstram a finalidade do pagamento nem estabelecem vínculo com Lindbergh.
Para avançar, será necessário identificar os titulares das contas de origem, seguir o caminho dos recursos e confrontar as movimentações com conversas, ligações, encontros e registros digitais. É justamente nesse ponto que uma investigação tecnicamente conduzida pela Polícia Federal se torna indispensável.
A acusação original contra Gaspar
O episódio começou em 27 de março, quando Lindbergh Farias e a senadora Soraya Thronicke apresentaram à Polícia Federal uma notícia de fato contra Alfredo Gaspar.
O documento atribuía, em tese, ao parlamentar alagoano um crime de estupro de vulnerável e uma suposta tentativa de pagamento para ocultar o caso. A representação mencionava uma adolescente de 13 anos e dizia que conversas e outros registros seriam encaminhados às autoridades.
A notícia de fato apresentada à Polícia Federal, no entanto, não apresentava publicamente prova conclusiva da acusação. Gaspar negou o crime e sustentou que o homem relacionado ao episódio seria um parente. Posteriormente, acionou o STF, a Procuradoria-Geral da República e a Polícia Federal contra os parlamentares responsáveis pela denúncia.
Câmara enviou o material ao STF
Depois de receber o depoimento, a Câmara encaminhou as informações ao Supremo Tribunal Federal. O material passou pela Corregedoria, pela Mesa Diretora e pela Advocacia-Geral da Casa. O processo foi remetido ao ministro Gilmar Mendes, relator da Petição 15.905, que tramita sob sigilo.
De acordo com as informações publicadas até agora, a Procuradoria-Geral da República solicitou diligências à Polícia Federal. O material foi transmitido à corporação em 5 de agosto.Até a publicação desta reportagem, não havia decisão pública conclusiva sobre o mérito das acusações.
Lindbergh nega e pede anulação
Na segunda-feira, 10 de agosto, Lindbergh apresentou uma reclamação ao STF para tentar anular o procedimento realizado pela Polícia Legislativa. A defesa argumenta que a Polícia Legislativa não teria competência para investigar fatos ocorridos fora das dependências da Câmara e não poderia realizar diligências envolvendo um deputado federal sem autorização e supervisão do Supremo.
O parlamentar também sustenta que não foi ouvido nem formalmente notificado durante a apuração. Além da anulação, pediu que o material fosse encaminhado à PGR para analisar a conduta do depoente e a possibilidade de pagamento ou recompensa pelo relato.
“Isso é uma picaretagem. Desconheço os citados e não participei de reuniões para tratar desse assunto”, declarou Lindbergh. A manifestação foi publicada pelo Correio Braziliense.
A íntegra da reclamação apresentada ao STF também solicita a suspensão do uso e do compartilhamento dos dados obtidos pela Polícia Legislativa.
A credibilidade de Luiz Antônio Lopes deverá ser analisada com o mesmo rigor aplicado às acusações feitas contra Lindbergh. A resposta correta é investigar: verificar o dinheiro, identificar as contas, recuperar mensagens, examinar aparelhos e confirmar ou desmentir a reunião virtual mencionada no vídeo.
Nulidade não pode apagar a verdade
A possível incompetência da Polícia Legislativa deve ser examinada pelo STF. Uma eventual irregularidade processual, porém, não pode significar o desaparecimento dos fatos apresentados. Se alguma diligência tiver sido realizada fora das regras, caberá às autoridades competentes refazê-la legalmente, com autorização judicial, perícia técnica e respeito ao direito de defesa.
Corrigir o procedimento é necessário. Impedir a descoberta da verdade, não.
A investigação precisa responder a quatro questões centrais: quem transferiu os R$ 16,5 mil e com qual finalidade; quem são “Marcela” e “Lucas” e quais vínculos políticos possuem; se a reunião virtual realmente aconteceu e quem participou; e se houve uma tentativa organizada de fabricar uma acusação criminal contra Alfredo Gaspar.
Também será necessário esclarecer se a denúncia original apresentada contra o deputado possuía elementos verdadeiros e se a Polícia Legislativa ultrapassou suas atribuições durante a apuração.
Se o depoimento de Luiz Antônio Lopes for falso, ele e eventuais articuladores deverão responder. Se o relato for confirmado por provas, todos os envolvidos na possível fabricação da acusação precisarão ser identificados, independentemente de partido, mandato ou influência política.
Lindbergh tem direito à defesa e à presunção de inocência, assim como Alfredo Gaspar tinha esse mesmo direito quando foi publicamente acusado. O que não pode existir é uma regra para acusar e outra para ser investigado.
Investigação precisa seguir o dinheiro
A verdade precisa ser apurada sem blindagem para Lindbergh, Alfredo Gaspar, aliados, partidos, testemunhas ou autoridades do Judiciário. Ao mesmo tempo, a investigação deve respeitar a legalidade e impedir que acusações ainda não comprovadas sejam utilizadas como sentenças políticas.
Uma nulidade pode corrigir o caminho da investigação. Não pode funcionar como uma borracha para apagar os fatos. Agora, cabe à Polícia Federal seguir o dinheiro, identificar os envolvidos, recuperar os registros digitais e esclarecer, com provas, quem falou a verdade, quem foi usado e quem pode ter participado dessa história.
Redação IO
Imagem Ilustrativa








