
Vice-governador tenta preservar espaço no tabuleiro de 2026, mas bastidores indicam que sua permanência na chapa de JHC já não depende apenas de sua própria história política
Ronaldo Lessa talvez esteja diante de uma das cenas mais incômodas da política: a de um líder que já decidiu muitos tabuleiros, mas agora vê o próprio espaço ser discutido por outros jogadores.
A pergunta que começa a circular nos bastidores de Alagoas não é pequena: Lessa ainda tem força suficiente para garantir lugar na chapa de JHC ou passou a ser apenas mais uma peça dentro de uma negociação maior?
A resposta, como quase tudo na política, não cabe em uma frase simples. Ronaldo Lessa não é um nome qualquer. Foi prefeito de Maceió, governador de Alagoas por dois mandatos, deputado federal, vice-prefeito da capital e atualmente ocupa a vice-governadoria do Estado. Sua biografia, por si só, impõe respeito. O próprio Governo de Alagoas registra essa trajetória como uma das mais longas da política alagoana recente.
Mas a política tem uma regra dura: história pesa, mas nem sempre decide.
Quando Lessa selou a aliança com JHC, em abril, o gesto parecia reposicioná-lo no centro do jogo eleitoral de 2026. A união foi anunciada publicamente, mas deixou uma pergunta essencial sem resposta: qual seria, de fato, o espaço de Ronaldo Lessa na composição? À época, a própria imprensa local destacou que ainda não havia definição sobre candidatura a vice-governador ou eventual disputa ao Senado, e que as respostas ficariam para uma etapa posterior.
É justamente nesse intervalo entre o anúncio e a definição que mora o problema.
Nas últimas semanas, a vaga de vice na chapa de JHC passou a aparecer como moeda estratégica nas conversas envolvendo Arthur Lira e Luciano Barbosa. A entrada de Arapiraca na composição virou ponto sensível, e nomes ligados ao grupo arapiraquense começaram a ser citados como possibilidades para a vice. Nesse cenário, Lessa deixou de ser apenas o aliado histórico que retornou ao lado de JHC e passou a disputar espaço dentro de um tabuleiro muito mais pragmático.
E aqui está o ponto central: Ronaldo Lessa não perdeu necessariamente a vaga. Mas a simples possibilidade de sua permanência depender da decisão de outros grupos já revela uma mudança de patamar.
Para um político com a trajetória dele, isso é simbólico.
Lessa conhece como poucos os atalhos, riscos e ironias da política alagoana. Já esteve no comando, já foi protagonista, já rompeu, recompôs, voltou ao jogo e sobreviveu a diferentes ciclos. Mas 2026 parece trazer uma pergunta mais difícil: o capital histórico ainda é suficiente para garantir protagonismo ou a nova engenharia eleitoral está falando mais alto?
A movimentação recente do PDT mostra que Lessa entendeu o recado. Ao reunir lideranças e reforçar a organização partidária, tenta demonstrar que não está sozinho, que carrega estrutura, base e identidade política. O gesto é legítimo. Mais do que isso: é necessário para quem percebe que o espaço que parecia natural agora precisa ser defendido.
Mas há uma diferença entre ser respeitado e ser indispensável.
Ronaldo Lessa ainda é respeitado. Tem nome, história, memória administrativa e um eleitorado que reconhece sua caminhada. Porém, a política atual é menos sentimental e mais matemática. Conta tempo de televisão, densidade territorial, força partidária, capacidade de transferência, alianças municipais e conveniência eleitoral.
Nesse tipo de conta, até biografias robustas podem virar variável de negociação.
O drama político de Lessa não está em ser descartado, até porque isso ainda não está definido. O drama está em ter que provar, novamente, que ainda precisa estar no centro da mesa.
E talvez esse seja o ponto mais humano dessa história. Todo político longevo enfrenta, em algum momento, a travessia entre ser protagonista natural e precisar demonstrar utilidade estratégica. Alguns conseguem se reinventar. Outros são empurrados para uma saída silenciosa, sem anúncio oficial, mas com sinais claros nos bastidores.
Ronaldo Lessa ainda pode permanecer no jogo. Pode ser mantido na chapa, pode ser usado como símbolo de equilíbrio político, pode representar uma ponte com setores que JHC não alcança sozinho. Mas a pergunta já foi colocada e, na política, quando uma pergunta desse tamanho aparece, ela raramente surge por acaso.
No fundo, a disputa pela vice de JHC não fala apenas sobre Ronaldo Lessa. Fala sobre uma política alagoana que negocia espaços com frieza, reorganiza alianças rapidamente e trata até lideranças históricas como peças de composição.
A história de Lessa não acabou. Mas talvez ele esteja diante de um fim de ciclo que não escolheu.
E a grande questão agora é saber se ele ainda tem força para escrever o próximo capítulo ou se outros já estão escrevendo por ele.
Opinião in Foco
By Roberto Matos
Imagem: Alexandre Câmara / Vice – Governadoria





