
A história não se repete de maneira idêntica, mas costuma deixar avisos. Em 2006, Ronaldo Lessa chegou à disputa pelo Senado carregando experiência, estrutura política e uma vitória anterior sobre Fernando Collor. Quatro anos antes, Lessa havia derrotado o ex-presidente na eleição para o Governo de Alagoas, com 52,93% dos votos válidos, contra 40,17%.
O retrospecto, porém, não impediu a inversão. Collor venceu a eleição para o Senado com 550.725 votos, equivalentes a 44,04% dos votos válidos. Lessa recebeu 501.239 votos, ou 40,08%. A diferença foi de 49.486 votos.
A mudança foi construída nas semanas decisivas. Um levantamento do Ibope divulgado pela imprensa em meados de setembro apontava Lessa com 35% das intenções de voto e Collor com 26%, embora outras pesquisas do período já registrassem oscilações. No resultado definitivo, Collor terminou quase quatro pontos percentuais à frente.
Vinte anos depois, o episódio ajuda a compreender a disputa entre JHC e Renan Filho. Pesquisas são importantes para retratar o momento, mas não devem ser transformadas em previsões infalíveis sobre o resultado das urnas.
Chapas definidas e pesquisas divergentes
O cenário de 2026 foi definido neste sábado, 15 de agosto, último dia para a apresentação dos pedidos de registro. Depois de avaliar uma candidatura ao Senado, JHC confirmou a disputa pelo Governo de Alagoas, tendo a ex-prefeita de Arapiraca Célia Rocha como vice. Renan Filho escolheu o ex-vice-prefeito arapiraquense Yale Fernandes para completar sua chapa. Os pedidos foram protocolados e ainda passarão pela análise da Justiça Eleitoral.
Os levantamentos da pré-campanha mostram uma eleição competitiva. Em junho, a TDL apontou JHC com 52% e Renan Filho com 37% em uma simulação de segundo turno. No início de julho, a Paraná Pesquisas registrou 47,5% para JHC e 42% para Renan. O Instituto Ranking encontrou 48% contra 39%, também em um confronto direto.
A Vox Brasil apresentou um cenário diferente: em uma pesquisa estimulada para o primeiro turno, Renan Filho apareceu com 49,3%, enquanto JHC alcançou 43,5%. Como os estudos foram realizados em datas, cenários e metodologias diferentes, os números não podem ser tratados como uma única sequência. Em conjunto, indicam apenas que nenhum dos dois deve ser considerado vencedor antecipado.
Capital, interior e estruturas políticas
JHC chega à campanha impulsionado pelo resultado obtido em Maceió. Em 2024, foi reeleito prefeito no primeiro turno com 379.544 votos, alcançando 83,25% dos votos válidos. O desafio agora será transformar essa força na capital em presença consistente nos 102 municípios alagoanos.
A escolha de Célia Rocha reforça essa estratégia. Ex-prefeita de Arapiraca e ex-deputada federal, ela acrescenta experiência e ligação com o segundo maior município do estado. JHC também conta com uma aliança política estruturada, que reúne nomes como Arthur Lira. Portanto, sua candidatura não representa um projeto isolado nem permite reduzir a eleição a um confronto simplista entre “o novo” e “a velha política”.
Renan Filho apresenta outras vantagens. Governou Alagoas por dois mandatos e venceu as eleições de 2014 e 2018 no primeiro turno, com 52,16% e 77,30% dos votos válidos, respectivamente. Sua trajetória proporciona conhecimento do interior, relações com lideranças municipais e a estrutura do MDB e do grupo liderado pelo senador Renan Calheiros.
Essa experiência, entretanto, não garante automaticamente um novo mandato. Renan precisará convencer o eleitor de que seu retorno representa um novo ciclo, e não apenas a continuidade do grupo que ocupa o poder estadual. A escolha de Yale Fernandes busca fortalecer a chapa no Agreste e ampliar sua ligação com Arapiraca.
Arapiraca, aliás, estará no centro das duas campanhas. Célia Rocha e Yale Fernandes são primos e já administraram o município juntos. Entre 2013 e 2016, ela era prefeita e ele ocupava a vice-prefeitura. Agora, estarão em lados opostos na disputa pelo Governo de Alagoas.
O que 2006 realmente ensina a 2026
Não é correto afirmar que JHC representa Ronaldo Lessa ou que Renan Filho repetirá o papel de Fernando Collor. Os personagens, os cargos e as circunstâncias são diferentes. A comparação está na dinâmica de uma campanha que pode mudar quando o eleitor começa efetivamente a decidir o voto.
JHC possui força na capital e aparece à frente em alguns levantamentos. Renan Filho tem experiência administrativa, capilaridade no interior e uma estrutura estadual consolidada. Nenhuma dessas vantagens, isoladamente, decide a eleição.
A propaganda eleitoral estará autorizada a partir deste domingo, 16 de agosto, inclusive na internet. A campanha ganhará as ruas, as redes sociais, os debates e os municípios. O horário eleitoral gratuito no rádio e na televisão começará no dia 28.
Até outubro, propostas, alianças, erros e o desempenho dos candidatos poderão modificar o cenário. A virada de 2006 não serve como profecia sobre quem vencerá em 2026, mas deixa uma advertência para os dois lados:
Pesquisa é fotografia. Estrutura é ponto de partida. Em Alagoas, ninguém deveria comemorar antes do último voto ser contado.
Redação IO
Imagem ilustrativa IA








